Fundamentos em
Bio-Neuro Psicologia

Memória: Definição e tipos.

Por: André R. Mendonça

 

A memória é umas das mais complexas funções neuropsicológicas, possibilitando ao indivíduo remeter-se a experiências impressivas, auxiliando na comparação com experiência atuais e projetando-se nas prospecções e programas futuros; assim, a memória para o processo pelo qual as experiências passadas levam à alteração do comportamento. Estudos com indivíduos normais e com amnesia fornecem evidencias para afirmar que a memória não é unitária, mas consiste em diferentes componentes, mediados por processos que são conduzidos por circuitarias neuronais diferentes (Moscovitch, 2004).

 

A memória comporta processos complexos pelos quais o indivíduo codifica, armazena e resgata informações. A codificação refere-se ao processamento das informações que serão armazenadas. A armazenagem, também chamada de retenção ou conservação, é o processo que envolve o fortalecimento das representações enquanto estão sendo registradas (Strauss, Sherman e Spreen, 2006) e a sua reconstrução ao longo da sua utilização e da entrada de novas informações. Finalmente, a recuperação ou repescagem é o processo de lembrança da informação anteriormente armazenada. O resgate pode utilizar uma busca consciente das informações ou ainda ser evocado de maneira não consciente através de associações dependentes do contexto, ativação por semelhança ou por necessidades (Correa, 2008).

 

Dois mecanismos importantes na recuperação são utilizados: o resgate e o reconhecimento. O primeiro caracteriza-se por uma busca ativa das informações armazenadas. Já o reconhecimento envolve comparações de estímulos anteriormente registrados com novos estímulos, sendo uma função bastante útil para se evitar falsas lembranças. Indivíduos com Doença de Alzheimer (DA) podem apresentar comprometimento em provas neuropsicológicas de resgate de palavras, porém com reconhecimento normal nos estágios iniciais, uma vez que tais provas parecem apresentar menor sensibilidade para diagnóstico precoce nesse tipo de demência.

 

Muitos modelos têm sido propostos para explicar os processos de memória. As fases ou estágios da memória foram associados classicamente ao modelo modal de memória (Atkinson e Shiffin, 1968). Esse modelo comportou a ideia de que a informação passava por um armazenador temporário sensorial, seguindo após para um de curta duração e finalmente um depósito de longa duração com capacidade ilimitada. Esse modelo foi testado exaustivamente e alguns de seus pressupostos refutados. Primeiramente verificou-se que a informação não precisa necessariamente passar por uma via linear, mas poderia seguir “em paralelo”. Além disso o sistema de curto prazo não é único, mas subdividido em subsistemas específicos, como a alça fonológica e a visoespacial do modelo de memória operacional. Sistemas que funcionam de forma paralela e distribuída.

 

Uma abordagem relativamente recente é a de que a memória se constitui por componentes que são mediados independentemente por diferentes módulos do sistema nervoso, mas de maneira cooperativa (Helene e Xavier, 2003; Strauss, Sherman e Spreen, 2006). Há uma série de classificações para memória e alguns sistemas chegam a ter seis sistemas para memória de longa duração, tal como já fora proposto por Squire e Zola (1996). Lezak e colaboradores (2004) Indicam que já foram listados 134 tipos diferentes de memória. Uma das contribuições mais importantes na distinção dos sistemas de memória partiu do clássico HM. O caso descrito por Scoville e Milner (1957) apresentava um homem com amnésia anterógrada profunda decorrente da excisão cirúrgica bilateral do hipocampo, comprometendo sua capacidade de registro de novas informações, havendo preservação bastante ampla da memória retrógrada. A dissociação cognitiva pelos autores tornou o caso não somente um dos mais citados na literatura, mas contribuiu também para as novas classificações de memória, no que tange a sistemas paralelos distribuídos e fatores de gradiente temporal.

 

 

Estrutura dos sistemas de memória.

Estrutura dos sistemas de memória, memória de longa duração (adaptado de Strauss, Sherman Spreen, 2006).

 

 

Dentre as divisões da memória de LONGA DURAÇÃO, temos a Memória declarativa, também conhecida como explicita. A memória declarativa é a que nos permite expor através de palavras algo que lembramos, mas sempre recorrendo a evocação. Por exemplo, contar para um amigo como foi sua viagem de férias a tanto tempo planejada.

 

A memória declarativa se subdivide em semântica e episódica. A memória semântica e responsável por consolidar o conhecimento do mundo a nossa volta, mas através de palavras. Enquanto a episódica refere-se a nossa experiência de vida, mas em um dado momento cronológico.

 

A memória episódica se subdivide em anterógrada e retrógrada. A memória anterógrada consiste na nossa capacidade de consolidar novas memórias a partir de um ponto, enquanto a retrógrada consiste em lembrar de experiências que aconteceram anteriormente em nossa vida. Para ilustrar todo o processo da memória declarativa, voltemos a situação da viagem de férias. Contar para um amigo como foi a viagem para um determinado lugar consiste em um bom exemplo do usa da memória semântica, mas a episódica se enquadra neste exemplo quando se quer contar por exemplo, como foi a viagem nos primeiros dias de férias.

 

Digamos que estivesse chovendo, o que impossibilitou um passeio à praia como planejado. Então através da memória semântica se expressa o que aconteceu, mas a episódica permite evocar o que aconteceu num dado momento e local da viagem. Ainda nesse exemplo da viagem a memória retrógrada entraria como a capacidade de evocar fatos acorridos anteriormente. Por exemplo, a sugestão de um amigo ao recomendar fazer a viagem em uma determinada época do ano ou de visitar um lugar especifico. Enquanto a anterógrada seria tudo de novo vivido durante a viagem, que agora seria considerado tempo passado, já que está sendo contada para alguém.

 

Outra divisão da memória de longo prazo é a implícita ou não declarativa. Esta subdivisão é a nossa capacidade de realizar um ato ou comportamento que originalmente exigiu algum esforço consciente, mas que não requer resgate intencional da experiência consciente. Uma modalidade de memória que consiste em adquirir habilidades reguladas pela percepção ou pela motricidade, mas que não tem como declarar verbalmente. Um exemplo muito comum é andar de bicicleta. Não tem como decompor tal aprendizado prático, simplesmente montamos em cima de uma bicicleta e saímos pedalando. É claro que tem outros processos como o equilíbrio, impulso ou forma de pedalar, mas cada indivíduo tem seu jeito.

 

Andar de bicicleta ou escrever são exemplos de memória procedural, ou seja, uma aprendizagem de forma mais ou menos automatizada e que foge a consciência. A memória procedural pode se estabelecer por condicionamentos, como no exemplo do cachorro de Pavlov, quando um estímulo antes neutro, passa a ser condicionado. Um cachorro salivar quando vê o dono chegando perto do meio-dia, antes inato, mas agora associado a comida, pois é o dono que o serve todo o dia no mesmo horário.

 

Certas memórias são adquiridas por habituação, como aprender a digitar no teclado de um computador, antes se digita com mais dificuldade. Porém, depois de muito treino e repetição o processo passa a ser automático. A adaptação pode ser exemplificada como a habilidade de digitar no computador, mas com um teclado diferente ou em um notebook. São as mesmas teclas, mas algumas se encontram dispostas em locais diferentes. O que a primeiro momento necessita de adaptação, se acostumar. Por vezes a habituação cria o super aprendizado. Uma modalidade de memória no qual o indivíduo memoriza determinada habilidade e a desenvolve a ponto de executa-la sem dificuldades, mesmo em uma idade avançada. Idosos que dão aulas de piano são um bom exemplo disso. Mesmo com funções sensoriais comprometidas como presbiopia ou ossos frágeis devido a idade. Ainda assim conseguem tocar piano com extrema habilidade.

 

A memória priming (Pré-ativação). É um tipo de memória descoberta e muito utilizada recentemente na neurociência. Ela se evoca, mas através de um estimulo sensorial como som, imagem, cheiro ou alguma palavra. É representada por tudo associado aquele estimulo. Por exemplo, o cheiro de terra molhada fazer você se lembrar de uma viagem que fez a uma fazenda no qual choveu o dia todo, mas que você nem se lembrava mais. Segundo efeitos experimentais, a memória priming refere-se à influência que um evento antecedente (prime) tem sobre o desempenho de um evento posterior (alvo), por exemplo. Uma palavra pode ser acessada mais rapidamente se precedida por outra palavra no qual partilha características semânticas (médico/hospital), semântica (hora/oca), ou morfológicas (dança/dançarina), (França, Lenle, Pederneira, Gomes, 2005).

 

Há testes dentre as baterias neuropsicológicas que avaliam a memória de maneira direta ou indireta. Vejamos por exemplo a figura complexa de Rey. No primeiro passo do teste o avaliando a cópia da forma mais exata possível, tendo como foco as estratégias para uma boa cópia. A avaliação da memória se faz presente no segundo passo do teste, quando o desenho deve ser evocado e desenhado. Dois outros testes que trabalham com memória e curva de aprendizado é a lista de figuras e o RAVLT (Teste Auditivo Verbal de Rey). Possuem uma forma semelhante de aplicação, sendo que na lista de figuras o avaliando deve nomear, evocar, memorizar e reevocar por duas vezes e depois de um tempo deve evocar tardiamente e por fim reconhecer as figuras que viu, ignorando outras que são distratoras. No RAVLT o avaliando deve memorizar uma lista de palavras e evoca-las ao longo do teste, sendo que a versão do teste para adultos tem uma lista a mais e palavras que são mais do contexto de adultos, diferente da versão para crianças. Em baterias como a do WISC-IV há dois sub testes que avaliam a memória semântica. Um é Semelhanças, no qual a criança deve dizer o que há em comum entre duas palavras. Outro é o vocabulário no qual a criança diz o que uma determinada palavra significa. Tais testes exigem que a criança evoque tudo que aprendeu com base na escola e/ou experiências de vida, apesar do foco destes ser mais a linguagem, mas a memória semântica é fundamento para a expressão verbal.

 

A memória de CURTA DURAÇÃO parece estar associada ao tempo de recuperação de uma informação, geralmente limitada em até um minuto, o que é proveniente do sistema proposto originalmente de modelo serial (Atkinson e Shiffrin, 1968). Essa memória seria limitada a uma quantidade de informação mediana e que necessitaria ou de descarte ou de uma aglutinação de novos elementos para sua ampliação (capacidade). Funcionalmente, a memória de curta duração parece depender de estruturas cerebrais distintas daquelas envolvidas na memória operacional.

 

A memória operacional é um sistema de memória responsável pelo arquivamento temporário de informação e serve para que operações mentais sejam realizadas no decorrer do mesmo. Ela permite que operações matemáticas longas ou complexas possam ser realizadas uma vez que as mesmas exigem manipulação mental de diversas informações simultânea e sequenciais. A memória operacional é avaliada pelo teste de dígitos (direta ou inversa) como um dos subtestes da bateria Wechsler de inteligência. A memória operacional é dividida em um sistema “supervisor”, o executivo central, e com dois sistemas “escravos”; a alça fonológica e a sua equivalente, a alça visoespacial (Baddeley e Hitch, 1974). As alças seriam subordinadas à central executiva, que funciona como um gerenciamento dos subsistemas. Mais recentemente foi acrescentado um quarto componente ao sistema, o retentor episódico. Esse componente seria o responsável pela conexão das informações da memória de longo prazo tornando-as conscientes durante o processo de lembranças, integrando assim a lembrança de episódios. Existem muitos testes para a avaliação da memória operacional. O mais conhecido é o span de dígitos das baterias Wechster (WAIS; WISC; WMS). Para a avaliação da memória operacional visoespacial um dos testes mais utilizados é o Cubos de Corsi. É uma prova de fácil aplicação e sensível principalmente para lesões do lobo frontal e prejuízos no hemisfério direito (Lezak et al., 2004). Estudos conduzidos sobre a aprendizagem na alfabetização, leitura e matemática têm fornecido evidência consistente de que a memória operacional represente um papel fundamental no aprendizado.

 

A memória prospectiva refere-se à capacidade de lembrar-se de executar uma ação planejada para o futuro. Ela requer que o indivíduo recorde tanto da natureza de um evento futuro, quanto da hora de sua ocorrência (intenção baseada no tempo) ou então lembre um conteúdo a ser tratado em um evento futuro (intensão baseada no evento). Ropeter e Mackinlay (2006), mostraram que crianças com transtorno do déficit de atenção/hiperatividade podem apresentar erros de intenção futura, provavelmente dependente do funcionamento executivo prejudicado nos portadores do transtorno.

 

Pode-se concluir que a compreensão dos sistemas explicativos do funcionamento da memória e dos melhores instrumentos para sua avaliação é crucial para a formação e o desenvolvimento do pesquisador e do profissional especialista em neuropsicologia.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

ABREU. N, MATTOS. P. MEMÓRIA. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed. 2010.

 

ELÓI. J. 7 MÉMORIAS DO SER HUMANO. Psicologia free. URL: “http://www.psicologiafree.com/curiosidades/7-memorias-do-ser-humano/”. Acessado em: 24 de setembro de 2015.

 

FERREIRA A. A e Cols. PRIMING (verbetes). URL: “http://psicolinguistica.letras.ufmg.br/wiki/index.php/Priming”. Acessado em 24 de setembro de 2015MAIA. J. MEMÓRIA. Cérebro: 100 coisas que você não sabia – Guia do usuário (Revista National Geographic). Editora Abril. São Paulo. 2015.

 

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